segunda-feira, 30 de julho de 2007

Compartilhando a biblioteca I

De quando em vez, tentarei trazer até aqui alguns volumes da minha biblioteca. Apenas comentários subjetivos sobre gostos muito pessoais.
Para uma tarde paulista e fria como a de hoje, eu ficaria na companhia de Guilherme de Almeida, um poeta da primeira geração modernista, senhor absoluto dos versos, da rima, da métrica, que mereceu o título de Príncipe dos Poetas pelo seu virtuosismo. Grande tradutor da língua francesa (suas traduções de Baudelaire, acompanhadas de notas explicativas são uma lição dos dois idiomas), também cultivou e disseminou no Brasil o hai-kai, sendo que seus filhotes orientais são muito peculiares.
A título de curiosidade, o lay-out da capa da revista modernista Klaxon é de sua autoria, sendo G. de A. um de seus maiores entusiastas e colaboradores.
Dono de uma enorme sensibilidade, aliada à elegância de vocabulário e da maestria na composição poética, Guilherme é um autor para se degustar em uma poltrona macia, numa tarde sem compromissos e acompanhado de uma chávena de chá.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

après 19 jours...

dezenove são os dias decorridos da última postagem... o que fiz neste tempo? trabalhei na lida insana e clichética do dia(a)dia, tal e qual nossos ancestrais corriam atrás da caça para sobreviver. o dinheiro é a caça moderna? e assim como às vezes os pa(leoliti)cmans corriam para NÃO SEREM comidos por uma caça que, por sua vez, os caçava, nós caçadores modernos muitas vezes temos que CORRER do prejuízo, já que correr atrás do prejuízo é um prejuízo ainda maior...

e meu fugaz leitor, atrás de quem corro (?) e que quiçá corra de mim (!), ou que corra atrás de meus escritos (!) enquanto corro afoita dele, sem nada escrever (?), este leitor virtual, hipotético, improvável, intangível, evanescente, cibernético, conhecido ou não se pergunta: qualé a tua, ó blogueira? vens com tamanha empáfia, com um presunçoso slogan, um título de blog pedante e? kd vc, bjs wlw fui!!!!!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

a literatura estevestáestará sempre presente mesmo nos meus dias de silêncio, e a pedidos de um amigo doutras terras neste mesmo continente sulamericano, também habitará entre nós a poesia.

sim, pois que o olhar atento do rapaz flagrou (delito!) a falta da poesia nas minhas postagens anteriores, o que, espero, não configure falta de poesia em meus escritos.

tenho, neste pretenso diário millietiano (para quem não conhece, sérgio milliet, crítico e autor modernista, contemporâneo, conterrâneo e colega do nosso aloprado oswald) abordado as caraminholas que passeiam por tantas voltas que o cérebro dá. e, tendenciosa dentro do meu objeto de estudo e trabalho que é o OULIPO, sempre puxado as brasas para meu escargotzinho.

é claro que, por dever profissional, eu tenha que pensar em todas as implicações do laboratório ainda pelos próximos meses, mas é que a cada dia que passa eu vejo OULIPO nos lugares mais engraçados possíveis... o mais recente foi o ORKUT, pode? entre tantas comunidades bobajol que eu A_DO_RO (porque não sou caxias de ficar só em comus de machado de assis e acadêmicos anêmicos), uma coisa que percebi é que existem muitos tópicos onde os membros fazem criações coletivas, um começa e a história não tem fim, por mais sem-pé-nem-cabeça que pareça, existe uma intenção de fazer e dar continuidade a uma obra de todos-e-ninguém ao mesmo tempo.

outra coisa freqüente são tópicos onde se estabelece uma regra qualquer de postagem, do tipo: atores de novela de A a Z, onde o primeiro posta o ator com A e os demais sucedem na ordem estabelecida. há regras simples com esta e outras mais complexas... o mais fascinante é perceber como as pessoas gostam de seguir estas regras para compor um universo, seja ele qual for, e também acompanhar como é difícil segui-las às vezes, pois um ou outro participante não consegue ater-se a uma proposta simples, ou se rebela mesmo e cria a sua própria regra dentro da regra, o que acaba tumultuando a proposta inicial. com o olhar treinado para estas questões, fica fácil identificar quem se perde dentro da regra e quem intencionalmente a manipula.

mas manipular a regra, ou restrição, não significa dominá-la, pois há aqueles que apenas a distorcem talvez por medo de serem dominados. é a grande maioria dos casos observados. mas há os virtuoses, que se saem com mérito do desafio, conduzindo a regra com segurança e precisão.

sim, sim, os eleitos como Georges Perec são minoria, que consigam fazer a restrição fluir como um rio de águas límpidas, mas que na verdade esconde um abismo inimaginável sob tanta placidez. sabe aquele laguinho zen que tem um vulcão adormecido?

voltando ao ORKUT, numa das comunidades literárias que participo, havia até um jogo onde a proposta era deixar um post com um texto que suprimisse a letra "a"! com certeza nem quem postou o tópico, nem os participantes que aderiram à brincadeira (na última vez que vi, haviam bem umas cento e tantas postagens!) sabiam que a técnica se chama "lipograma" e consiste em redigir um texto coerente, inteligível (e no caso oulipiano, literário) usando vocábulos sem determinada letra.

não resisti, brinquei, falei sobre OULIPO em meu texto. é um grande desafio criar um registro sobre alguma situação ou impressão, sendo cerceado da liberdade de usar o primeiro e mais fácil termo que nos vem à mente. talvez a potencialidade comece onde a obviedade termine. questão de limite ou território, já falados aqui em postagem anterior... mas é difícil, no começo, livrar-se de dogmas e paradigmas. não é fácil aceitar o fato de que "eu não posso fazer determinada coisa, mas posso fazer qualquer outra coisa no lugar"

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Sagrado e Profano

Discussões que afloraram no Laboratório esta noite: o que é, o que não é.
O não-é, algo fácil de definir. Uma porção de negações do é. Negar por três vezes. O não-é é um ser não-sendo.
O é. Indefinível, a cor do invisível, dizer o indizível. Ser é a instância máxima, não há palavras que alcancem a magnitude de ser? Ser é completo. Que é o Tao? Tentar definir é se afastar do Tao. As representações da coisa não são a coisa. Uma foto não é uma cadeira, a palavra cadeira não é o objeto, será ao menos objetiva?
"A Terra é azul" - "O céu não é azul" - em quem acreditar, Yuri Gagarin ou Padre Vieira? O que é o azul? Kieslowski tem razão: "A liberdade é azul". Duas coisas impalpáveis, mas sensíveis.
Fronteiras a localizar, demarcar, ultrapassar. Estou do lado de dentro ou de fora desta cidadela?
Um limite: propriedade ou prisão.
Tantas perguntas nestas almas ávidas por respostas. Respostas poucas para razões famintas.
Cidades invisíveis desfilam no espaçotempo: janelas que olham para São Caetano valem mais do que janelas que olham para Santo André. Mas as janelas cerram seus olhos para estas diferenças. E os donos das tais janelas olham para seus umbigos adornados de piercings que valem mais do que os dez mil dinheiros...
Navegar é preciso, viver não é preciso.... medições, cálculos, previsões... Não há bússolas que orientem o viver, no tempo de Fernando Pessoa não havia essas tábuas de salvação das auto(a)judas. Querer tornar o viver previsível, cabível numa fórmula, equacionável?
Assim é com a Literatura. Não cabe numa estatística, as grandes obras que nos inquietam não seguem a receitinha da Ana Maria Praga. São frutos da vida vivida com suas dores e alegrias, sem fazer nenhum tipo de concessão.
Que o digam a santíssima trindade Marcel Duchamp, Dante Alighieri, Leonilson. Amém!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Literatura é:

Quem pode definir o que literatura é? Aquele que estuda os livros e autores como se mortos fossem, dando classificações assépticas e homogêneas, catalogando, rotulando, dissecando e armazenando em vidros cheios de formol?
O leitor voraz e sôfrego, perdido num mar de títulos, tendo que (quase sempre) julgar um livro pela capa (que parece uma embalagem de bombom ou cigarro, há sempre os homens do marketing dando um layout tentador, sedutor, induzindo mesmo a comprar)? Tantos livros escritos, ora seguindo regras e restrições, ora técnicas e macetes, ora formas e formas...
O autor: esta figura que nem sempre é o Narrador proustiano, será que saberá o que é literatura? "Literatura é tudo aquilo que o autor chamar de literatura"...???!!! Aquele que escreve uns rascunhos, manda para um editor, este aponta os aspectos mais comerciais da "obra", recomenda que o cidadão faça um "curso de técnicas de escrita", depois volte com as idéias mais aclaradas. E o sujeito vai, matricula-se no curso, paga as 12 mensalidades do "carnê do baú da literatura", sai com diploma de escritor, originais debaixo do braço (realmente uma obra suada...), pede a um professor conhecido que corrija a ortografia e a sintaxe, as concordâncias e desinências verbais, as próclises, ênclises e mesóclises, o agente da passiva, o verbo bi-transitivo, pois nestes detalhes não é muito bom..., volta ao editor, e bingo!, mais um livro se publica. Quem é o autor mesmo deste frankenstein? Mr. Hyde ou Dr. Jekill?
E mais uma vez pergunto: O que é mesmo que eu queria saber?